Entrevista a Nuno Correia

A Prio é uma cadeia de valor integrada, com um Terminal de Armazenagem, logística primária independente através do Terminal de Tanques em Aveiro e Fábrica com entreposto fiscal de transformação de biocombustíveis. Esta é ainda a única empresa de comercialização e distribuição de combustíveis da Península Ibérica com com capital 100% Português. A Prio é um subholding do Grupo Martifer para a área dos biocombustíveis, que pretende uma integração vertical da cadeia de valor, desde a produção à distribuição de biodiesel. A grande inovação da Prio assenta numa verticalização do negócio a fim de potenciar um custo de produção muito mais competitivo para o consumidor final. Para isso a Prio detém investimentos consistentes em todas as fases do processo, desde o cultivo e produção, passando pela transformação e distribuição. O NETec quis saber mais sobre a Prio e a produção de biocombustiveis em Portugal e por isso entrevistou o Nuno Correia, parte integrante da direcção da fábrica.

NETec: Rita Gomes
Prio: Nuno Correia

NETec: A Prio utiliza diferentes fontes para obter o óleo vegetal, qual a fonte mais utilizada na produção de Biodiesel pela Prio e quais as diferenças no produto final?

Nuno Correia (Prio): De entre os diferentes tipos de óleo vegetal que a Prio utiliza, a matéria-prima mais utilizada ao longo do ano é o óleo de soja. O biodiesel final mantem todos os seus parâmetros e características principais independentemente dos óleos vegetais virgens que tipicamente utilizamos na nossa produção (óleo de soja, óleo de colza, óleo de girassol, óleo de palma). A grande diferença na utilização destes diferentes tipos de óleo vegetal está nas propriedades de frio do biodiesel final, matérias-primas que têm ponto de fusão à temperatura ambiente (como o óleo de palma) leva à produção de biodiesel com a mesma característica, pelo que essa matéria-prima é preterida durante os meses de inverno.

NETec: A Prio tem os seus próprios terrenos agrículas de onde obtem o óleo vegetal, quais as vantagens e onde se situam?

NC: O grupo Prio tem sofrido algumas alterações nos últimos anos, e uma delas foi a separação da sua vertente alimentar, que tem representação nacional e internacional, com actividade agrícola na Roménia, Moçambique e Brasil (hoje designada por Nutre), da vertente de combustíveis e energia (Prio Energy), esta última apenas com representação nacional. O óleo que adquirimos para a produção de biodiesel vem de qualquer origem e é negociado com a Nutre ou com qualquer fornecedor desta matéria-prima, desde que cumpra a especificação por nós exigida e o preço seja competitivo.

NETec: A Prio utiliza um processo alemão para a obtenção de Biodiesel, poderia explicar como funciona? (Descrever dentro do possível as etapas e equipamento do processo mais utilizado)

NC: Sim, a Prio utiliza na sua fábrica de biodiesel uma tecnologia alemã de produção de biodiesel de primeira geração. Este processo de produção de biodiesel utilizado pela Prio não é muito diferente das restantes fábricas de primeira geração. É sobejamente conhecida a reacção de transesterificação de triglicéridos em ésteres usando como álcool o metanol em catálise básica, por isso não é a reacção química principal que diferencia as diferentes tecnologias, mas os processos de separação utilizados, de modo a separar o biodiesel e os subprodutos da reacção.

O processo produtivo pode ser dividido em três etapas: 1ª o tratamento do óleo cru, para retirar impurezas e os ácidos gordos livres, estes últimos são a principal causa da ocorrência de reacções secundárias no reactor de transesterificação; 2ª a transesterificação e separação do biodiesel; 3ª separação da glicerina do metanol e recuperação deste último, que é sempre usado em excesso na mistura reaccional.

NETec: Uma das questões levantadas relativamente ao recurso a Biocombustiveís, é a utilização de terreno agrícula para produzir óleo vegetal a partir de fontes de alimento tanto para uso humano como animal. Qual a sua opinião relativamante a este assunto e qual a área necessária de cultivo que garante a capacidade anual de produção da Prio?

NC: Esse é de facto o debate que mais tem influenciado as novas directivas da União Europeia relativamente à política de biocombustíveis. Estou convencido que os biocombustíveis são de facto uma boa alternativa na transição do combustível fóssil para o(s) combustível(is) do futuro, não só porque são facilmente adaptáveis aos meios de locomoção que utilizamos, como também em grande parte são compatíveis com o combustível fóssil utilizado, tendo por si a grande vantagem de reduzir a pegada de carbono no consumo de combustíveis para o transporte. Se há de facto excessos na alocação de áreas agrículas à produção de culturas com destino à produção de biocombustíveis, também é verdade que a alocação total destas culturas aos biocombustíveis situa-se entre os 5 a 10% face às culturas com destino à alimentação humana, pelo que o seu impacto deve ser visto em função da sua real dimensão e não sobre a especulação que os mercados estão a exercer sobre todos os recursos naturais, desde o surgimento da crise financeira. Também é verdade que a desmatação e desfloração para a criação e áreas aráveis tem sido um problema com impacto significativo em algumas regiões do globo, contudo há hoje mecanismos que avaliam o ciclo de vida da produção dos biocombustíveis, analisando a sua sustentabilidade como um produto verdadeiramente “bio”.

Não faz sentido, na minha opinião, produzir biocombustíveis que de facto não tenham um verdadeiro impacto na redução da pegada de carbono face ao combustível fóssil equivalente. Essa situação está hoje acautelada com a obrigatoriedade de certificar o biodiesel como verdadeiramente sustentável, que é validado por uma certificação de toda a cadeia de produção, desde a plantação da semente à produção e distribuição do biocombustível. Isto leva em consideração o factor de proximidade entre a plantação, produção de óleo e produção do respectivo biocombustível, assim como a integração do destino das culturas, como é o caso da soja, cujo principal objectivo é a obtenção de farelo para a alimentação animal, pelo que o óleo resultante acaba por ser um subproduto desta indústria que necessita de destino.

Relativamente à segunda parte da sua questão, grande parte do consumo Europeu de óleo vegetal, para a produção de biodiesel, é sobretudo de óleo de soja e óleo de colza, e cada uma destas culturas tem uma produção por hectare e um rendimento na extracção que difere entre si, e nas condições climatéricas e de terreno onde são cultivados. Se assumirmos uma média de rendimento de 3 a 3,5 ton/ha para a soja (com um rendimento de extracção de cerca de 20%) e de 2 a 3,5 ton/ha para a colza (com um rendimento de extracção de cerca de 40%), podemos dizer que na produção de cerca de 100.000 ton por ano de biodiesel é necessário uma área de plantação, combinada entre estas duas culturas, de cerca de 110.000 ha a 160.000 ha.

NETec: A Prio faz várias referências à preocupação com a pegada ecológica, especialmente às emissões de CO2, de que maneira a utilização de Biocombustíveis pode contribuir para a diminuição do impacto ambiental proveniente da utilização de combustíveis?

NC:A União Europeia tem estado atenta não só à introdução de biocombustíveis em todos os seus estados membros, com a imposição de metas de incorporação até 2020 a que todos estão obrigados a cumprir, mas também ao verdadeiro impacto que esses biocombustíveis tem na redução da emissão de gases de efeito de estufa, face às emissões equivalentes dos combustíveis fosseis. Desde modo temos hoje implementado na União Europeia a certificação de sustentabilidade dos biocombustíveis, isto é, os biocombustíveis têm que obrigatoriamente evidenciar uma redução de emissão de gases de efeito de estufa face ao equivalente fóssil, acima de 35%, para ser considerado um biocombustível sustentável. Esta meta passa para 50% já em 2017 e terá ainda um novo aumento para 60% em 2018. Deste modo podemos efectivamente dizer que a redução de impacto de emissão de gases de efeito de estufa é 35% abaixo das emissões equivalentes do combustível fóssil e muito em breve será de 60%.

NETec: Mesmo dentro da Prio, não só existe uma aposta nos Biocombustíveis como também na parte da mobilidade eléctrica, quais as vantagens entre elas e que diferenças existem no mercado de cada uma?

NC: Os mercados são bem diferentes no sentido que os biocombustíveis, neste caso o biodiesel, tem como principal mercado o consumo de gasóleo rodoviário, ou seja, todas as viaturas com motor a diesel e que já são consumidores de gasóleo rodoviário. A mobilidade eléctrica por seu lado surge de uma nova oportunidade criada recentemente, onde por vontade política foi possível arrancar com um projecto nacional de criação de uma rede de abastecimento para os novos veículos eléctricos. O papel da Prio neste projecto passa sobretudo na fomentação e instalação de pontos de abastecimento eléctrico, aproveitando também a sua rede do postos de abastecimento de combustível. Mesmo sendo duas áreas distintas relativamente ao mercado a que se destinam, o princípio é o mesmo, promover os combustíveis sustentáveis e permitir a ampliação da rede de distribuição e de abastecimento destas fontes de energia alternativa por todo o país.

NETec: A medida EN590 (permitir incorporações até 7% de Biodiesel no gasóleo, considerando ainda uma obrigatoriedade de 10% de incorporação média no gasóleo vendido em cada país), que a UE estabeleceu como meta 2020, foi antecipada para 2010 em Portugal, qual a sua opinião?

NC: Portugal, e a meu ver bem, quis dar logo o salto legislativo que permitisse desde já estar preparado para uma incorporação superior àquela até agora permitida pela norma do gasóleo, EN590. Deste modo, tendo legislado nesse sentido, em Portugal não haverá qualquer atraso na entrada em vigor de uma maior incorporação de biodiesel quando a norma do gasóleo for alterada, de modo a permitir a incorporação de 10% de biodiesel no gasóleo rodoviário.

NETec: Que incentivos foram tomados por parte do governo Português e/ou pela UE para incentivar a produção e comercialização de Biodiesel?

NC: Em Portugal houve de 2009 a 2010 incentivos à compra de biodiesel com a redução parcial do imposto sobre produtos petrolíferos. Esse incentivo acabou no final e 2010 e esperamos que na revisão actual da fiscalidade verde seja novamente contemplado os incentivos à incorporação de biocombustíveis, de modo a permitir a comercialização de misturas mais ricas e dar ao cliente final a opção, a preços competitivos, da escolha dos biocombustíveis face ao gasóleo rodoviário, como aliás acontece noutros países da União Europeia.

NETec:Quais os maiores desafios encontrados para a comercialização deste tipo de combustível?

NC: O maior desafio até agora, e estou em crer que o será sempre, é comercializar um produto, que apesar de todo o benefício ambiental que trás, é mais caro do que os combustíveis fosseis.

NETec:Na sua opinião, poderá o aumento do consumo de Biocombustíveis contribuir para a diminuição da dependência mundial dos países detentores de petróleo?

NC: Não vejo isso desse modo, porque o grande benefício do consumo de biocombustíveis sustentáveis, é a redução do impacto do crescimento do consumo de combustíveis na mobilidade global, e a diminuição do consumo descontrolado dos combustíveis fósseis para esse efeito. Na verdade permitem aumentar o tempo de transição que a humanidade vai necessitar para encontrar alternativas viáveis aos combustíveis fósseis e à sua dependência de consumo de petróleo, não só como combustível, mas também como matéria-prima para todas as indústrias que usam os seus subprodutos e que alteram o modo de vida do homem no século XX e XXI.

NETec: Que projectos antevê a Prio para o futuro?

A Prio continua na procura de matérias-primas mais sustentáveis, encontrar meios de produção de um biodiesel que vá de encontro às novas metas da União Europeia, nomeadamente pelo recurso à utilização de resíduos (óleo vegetal usado) na produção de biocombustíveis. Para além disso o objectivo da Prio passa também por crescer ainda mais no mercado de distribuição de combustíveis em Portugal, de modo a que a sua marca tenha impacto junto dos consumidores, e que estes nos vejam como uma empresa que procura oferecer um combustível mais amigo do ambiente.

Muito obrigada pela disponibilidade e colaboração, se tiver alguma questão relativamente às perguntas, não hesite em contactar-me.

Rita Gomes

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Sou estudante do 5º ano de Engenharia Química no IST. A ideia de criar o NETec surgiu da vontade de por em prática os conhecimentos adquiridos durante a faculdade e alarga-los à comunidade na temática da Energia. Pessoalmente a àrea que mais me desperta interesse é a da sustentabilidade, quero saber mais sobre fontes de energia que possam ser uma solução inteligente e verde para o nosso futuro. Eu acredito que qualquer aluno do IST tem algo em que pode acrescentar, e é nesta máxima que a nossa equipa se baseia.
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